sábado, dezembro 24, 2005

O Amor e o Natal

Tudo o que sei é que é Natal. Olho beirado à janela e vejo alguns enfeites, algumas árvores de vizinhos. Vejo também meu amor lá embaixo, falando alto e rindo. Já não bastasse auscultar sua voz enquanto durmo, tomo banho, leio, ou estudo. Tudo contém teu pouco e dentro de mim vários fragmentos se quebram, em fissão nuclear. "O Natal não é mais o mesmo", ela dizia. Não. Mas pior foi ouvir dizer "me deixa", como se no fundo, nossos poros jamais tivessem se tocado e trocado uma respiração austera e rítmica; como se fosse destruir a pirâmide de cartas o meu toque mais casto...não imaginou, um segundo sequer, que a palavra "deixa" fez criar em mim um buraco esparso, tal qual buraco negro, que cresce em suas anãs e destrói os astros próximos. Eu me faço o mal que tu me fazes, e tenho por ti a culpa de fazer aquilo que me auto-mutila. Eu te observo. Tal qual Marte ou Vênus, que estão ali, mais próximos que tu. A sensação é de que o universo se dobra, mas tu não podes jamais te curvar ao meu abraço, sequer impor teus lábios a um beijo amigo. Mas é Natal. E não sei por quê ainda te amo...

quarta-feira, dezembro 21, 2005

Tensão Superficial


Meu sério sentimento está por uma película tensional que o prende ainda na superfície da água cristalina. Como inseto, ele pousa aflorado, segurado pelas pontes de hidrogênio e tenta não submergir, porque seria mais difícil manter-se vivo. Ainda tenho minha dor no pescoço e nenhum amor pra contar. Tenho também pílulas ansiolíticas e uma raiva que dói não-sei-por-quê no peito. O sangue me circula e é frio, só não congela porque sou do Rio de janeiro, cidade do sol brasante, da poeira esparsa, do abafamento.

Não vê que não é isso tudo que me faz triste, que se choro agora é falta de amor? é falta de amor. Se quero mais quando tenho tudo; não existe tudo. A minha tensão superficial está por se desfazer, enquanto lentamente a água se congela. Há o desdobramento do coração, este que se atrofia por anos sem amar. E a ti, que tanto amo, deixo enfim a película se arrebentar...meu sentimento enfim afogado e esquecido, no leito frio e perene de um rio...

terça-feira, dezembro 20, 2005

Cinema, Aspirina e Urubus [ou Do Grande Toró de Terça-Feira]


Fomos lá eu e Mário pra ver filme juntos. Eita como Mário me diverte. Ri tanto com ele pelo caminho. Antes foi no buraco do não-sei-o-quê lá na carioca que murmurei pessimamente pra alguém que me apontou: "é lá!". E depois ele me contando as parafernalhas cedidas pelo Pc do B pra montar a apresentação do coro junto com a velha guarda de Vila Isabel. O som tava uma bosta, o Rio, como sempre, poluído sonoramente. Brasileiro é muito barulhento, escandaloso.
Mas daí corremos juntos pro estação botafogo e pegamos aspirina. Não vale que esta hora liga a empregada do Mário pra pedir requiejão e um monte de queijo...e fomos correndo, com ingressos já comprados, prum mundial lá perto. E o que acontece no interstício das coisas? Um temporal! E deu nós dois correndo pro cinema pra pegar a sessão. Meia hora de atraso não é pouco! Eu fiquei ensopado, assim como o Mário, que entrou sem camisa e viu o filme assim [hahaha, só ele mesmo]. Eu ri tanto com o Mário no cinema que nem consegui me concentrar no filme. =] Mas enfim, foi divertidíssimo. Nem consigo traçar linhas poéticas do filme. Prometo que tento fazer depois [de uma segunda leva talvez]...

domingo, dezembro 18, 2005

Alto da Boa Vista

À minha frente um morro e uma nascente; às minhas costas uns entulhos; ao meu lado um monte de livros numa estante. Parece bagunça, mas é paz. A brisa calma que espeta minha barba mal feita deixa nas entrelinhas qualquer significado e cá estou eu: sentado, bilingüe [a língua outra que será?]...lá embaixo as pessoas dançam e cantam; eu, aqui em cima, as amo de uma forma tão simples que preferi não usar sinônimos; amo assim: no silêncio. E a palavra escrita, tal qual papel e caneta, é a forma mais silenciosa de amar. Tem uma manga rosa no topo de uma árvore, madurinha, lá em cima, quase no último galho: não há bambu que alcance. Mas que água na boca sinto de subir com pés descalços nos cipós entrelaçados da magueira, deslindando cada poro da inextricável estrutura. A mangueira é bem mais que a manga. Um banho numa nascente me espera. Esta casa é ilimitada; dissolve minha fronteira. E quando cair o primeiro pé d'água eu vou me atirar na piscina feito louco: porque não tenho extremos...
À minha frente um morro e uma nascente; às minhas costas uns entulhos; ao meu lado um monte de livros numa estante. Parece bagunça, mas é paz...

sexta-feira, dezembro 16, 2005

Saraiva e descontos [bregas?]

Eu: Com licença, eu vou levar esse aqui.
Vendedor da Saraiva: É R$45,00.
Eu: Eu tenho cartão da loja.
Vendedor da Saraiva: Sim, mas alguns livros não têm desconto.
Eu: Ah é? E quais têm?
Vendedor da Saraiva: Aqueles ali.

E apontou com o dedo uma estante de papelão. Paguei os quarenta e cinco. Valeu a pena. Muito até. Edição capa-dura de Lavoura Arcaica. Triste foi olhar os livros que tavam dando desconto: O.D.o.c.e V.e.n.e.n.o.d.o.E.s.c.o.r.p.i.ã.o. (problemas made-in-google) de uma tal de Bruninha.s.u.rfistinha [é como se diz, de um título brega, há de se esperar um nome mais brega ainda]. O mundo parece que encaretou de vez. E tal foi minha sanha quando também vi um daqueles volumes de cem folhas explicando como é a felicidade, segundo dalai-lama. Ao meu ver, esse monge tibetano deve estar nadando no dinheiro, sem nunca ter ensinado felicidade a ninguém, afinal, não bastou um só volume. Tem "Seja feliz com dalai-lama no trabalho", "com dalai-lama na família", "com dalai-lama no shopping-center", "com dalai-lama na padaria"...acontece que estes livros vendem o equilíbrio que nunca foi adotado numa postura ocidental, e as pessoas acham que, comprando, elas vão finalmente aprender...equilíbrio só com paciência, coisa que o homem está precisando nos tempos de hoje. Vale que também tinha o novo do Saramago. Agora todo mundo lê Saramago porque ele é o Nobel. Peloamordedeus, não o menosprezo: é um gênio, sem sombra de dúvidas. Eu mesmo nunca li um livro dele, mas pelas idéias que conheço de "Ensaio sobre cegueira", "intermitências da morte", e o "evangelho segundo jc" eu tiro meu chapéu. Saí da Saraiva com meu Lavoura na mão e com vinte reais na conta do banco. Fazer o quê né? Algumas pessoas simplesmente são sedentas por cultura...

terça-feira, dezembro 13, 2005

Água Fria

Tenho uma centena de manuscritos.
Neles está o que quero,
mas faltam cem mãos.
E, pasmado, desencontro os olhos
do meu quarto:
não há tempo,
memória,
mas quero tudo.
Deixo-me entrar
no frio do chuveiro,
esperando que a água mole
bata e fure.
Há pouco de mim.
Mas continuo,
como perseverante
que nunca fui.
...sentir que vale.
basta uma idéia e um sentimento.
Eu tenho a idéia;
mas estou tão desgarrado do poema
que posso apagá-lo
sem achar que perdi parte
da minha vida.
Olho o espelho
e a toalha que me enlaça
o flanco e esconde as partes.
"Teu corpo é meu espelho
e em ti navego".
Se meu o verso,
o poema se completaria...
Volto então ao meu quarto
e já sem mãos,
tento ler os manuscritos.
Na falta de ti
tudo agora faz sentido.

A palavra difícil

Tenho um problema pra decorar uns verbos: execrar, exasperar e exortar. Nem pra lembrá-los, são de fácil caráter mnemônico, o problema são as definições. Execrar é a mesma coisa que detestar; exasperar, o mesmo que irritar; enquanto exortar, é incitar, provir de vontade. Tanto que somos egrégios no que diz respeito ao uso de vocábulos não conhecidos que caímos nesse vão. É preferível, poeticamente, um exaspero a um irritadiço. Talvez não. É...talvez não. É que quando não se tem o que escrever, ficamos por hora buscando a palavra certa. Mas não há. Porque o corpo parou, a mente também...mas teimamos em acreditar que as palavras difíceis resgatam...

sábado, dezembro 10, 2005

Ordem sem progresso

Ensaio. Acordar às sete horas da manhã tendo dormido às três. Nem compensa. Aquela coisa toda desafinada. Uma parafernalha musical! Dentro da minha cabeça uma idéia e uma vontade que transcende de escrever um poema. Tenho os títulos à mão: mobília, concretização do ato, les heures d'un poème...mas o conteúdo está como pastel vazio: a massa exuberante por fora e dentro nada além de sopro. Não há dentro de mim expressão menos besta que um lugar comum...pra cuspir arte primitiva é melhor parar. Respira. Seu talento tá aí. Nas versificações e músicas, nos poemas não escritos...enquanto houver um poema a ser escrito, uma música a ser feita...ainda existe. Mas o que fazer com essa coisa que, num baque ilícito, está dançando em mim? Eu leio esse texto: tá tudo uma merda. Se eu tivesse com o papel eu jogava fora, mas eu quero escrever! Qualquer lixo, qualquer droga, porque existe algo ainda que se manifesta...e não sei dizer o que é; e dá uma puta dor nas costas, uma tensão cadavérica no pescoço e uma vontade de comer que mata...respira. É só arte que chega. Afinal, sempre evoluímos prum lugar melhor. Espera...nunca acreditei mesmo que ordem levasse ao progresso. A essência das coisas está exatamente na desorganização delas...

quinta-feira, dezembro 08, 2005

O segredo

- O que você tem na mão?
- Um segredo.
- Qual?
- Se eu te contasse, não mais seria.
- E se eu te disser que sei.
- Então me diga o que é.
- Mas não é um segredo?

quarta-feira, dezembro 07, 2005

O intermitentes ganha um rumo

Se você acordou agora, limpa os olhos que estão coçando, e não sabe que já inventaram um terremoto capaz de dizimar a população da Terra...é preciso ter pernas e braços! Em cada canto do planeta milhares de luzes, milhares de marcelos estão escrevendo um diário intermitente num blog qualquer, espalhado e com um único ID. Não há razão pra escrever, mas você continua porque existe...

- Filho, desliga o computador, vai dormir! Já são duas da manhã!

Como explicar que ainda é cedo? sempre é cedo. Vamos que lá fora ainda estão os velhos pedófilos, os capitalistas poderosos como canibais, tomando cada carne, cada poro da tua respiração. Ainda é cedo...estamos vivos! Enquanto estivermos, ainda cedo. Resistimos porque ainda resta o que chorar. E quando nos arrancarem a última lágrima, eu me questiono: o que choraremos? Sangue?

segunda-feira, dezembro 05, 2005

A verdade em diálogo

- Não estou bem.
- Não diga isso. Não aqui.
- Mas por quê?
- Porque o intermitentes já deixou de ser algo pessoal faz tempo...esqueceu que há visitantes?
- O intermitente ainda é pessoal.
- Já não é. Ou vai me dizer que você é tão natural quanto de início?
- ...
- Shhhhh! Faz silêncio. Tem gente logando na outra sala.
- E o que se faz pra ser sincero?
- Cria outro Intermitente.
- E começar com a mesma premissa? Se a primeira não deu, fazer da segunda o erro repetido?
- Dá outro nome, desliga a tela, o endereço. Agora diz a verdade! Mas verdade é pra ser escondida. Você sabia disso no início. Parece que não lembra mais. Tornou pública!
- Foi um acidente.
- Um acidente inconsciente, diria eu! No fundo você quis que todos soubessem de suas verdades.
- Shhhh, faz silêncio...
- Por que? Não há ninguém.
- É, mas suas verdades me incomodam.
- Por serem minhas?
- Não! Por serem verdades.

sexta-feira, dezembro 02, 2005

O outro homem

Não sou eu o amor de quem tanto falas. Há um alguém de longe que não sou. Pessoa comum, eu atravesso a avenida Chile, desejando ter feito um poema. Pessoa comum, ele atravessa outra avenida. Não choro, engulo forte. Não sou eu, amor, de quem falas tanto. E vi a foto dele pregada na tua parede. Pior que a foto: a memória boa, que não se descola. Momento que não meu, o pensamento que não me pertence. Não nego que por terceiros vi a foto e soube dos fatos. Não era eu o amor de quem tanto falavas. A boca, o peito, o corpo, a cor e até os olhos: nem mesmo os olhos. Entristeço, pois sei que jamais vou pertencer a ti, como ele. Ele é tão belo que choro: perco em tudo. E se quiseres, amor, construo pra ti o que ele não pode dar. Pra dormir contigo. E ser parte da tua parede e da tua memória. A minha maior tristeza é saber que não posso renascer como ele, que a única coisa que não posso por ti, é renascer. O que posso te dar é a ilusão do que escrevo, que não trocarias ao menos por aqueles olhos. Tá. São belos olhos, azuis. Tão azuis que invejo. Um sorriso branco e límpido que carrega uma pureza translúcida. Os cabelos claros e uma alegria de espírito que jamais terei. Por ser quem sou, amor, teu único e humilde, servo.